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O trauma: seus efeitos coletivos e singulares

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Publicado por em Voz da Sociedade · 1 Abril 2020
Voz da Sociedade
O trauma: seus efeitos coletivos e singulares
Luciana Lara
Há exatos cem anos, Sigmund Frud publicava um de seus mais importantes trabalhos:  “Além do Princípio do Prazer” tinha como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial, e revolucionou  para sempre o pensamento freudiano e a teoria psicanalítica.

Freud encontrava-se ocupado, a um só tempo, do próprio sofrimento –  o distanciamento dos amigos, privações de todos os tipos – e do singular sofrimento dos soldados vindos do campo de batalha. Além da angústia, sintomas físicos e insônia, manifestava-se através de pesadelos que se repetiam sem cessar. A repetição do sofrimento colocava em cheque aquele que era, até então, um dos mais importantes pilares da teoria freudiana: a idéia de que o psiquismo tende à busca do prazer, e que a pulsão se move na direção inscrita pelas experiências prévias de satisfação vividas pelo sujeito. Qual seria então o sentido da repetição, pelo psiquismo, de experiências que trazem desprazer?

Em consonância com a forma peculiar pela qual construía suas idéias e conceitos, Freud parte do sofrimento psíquico  e segue em direção dos fenômenos da vida cotidiana, buscando  compreender simultaneamente a maneira pela qual o psiquismo é constituído, e como este processo constitutivo está implicado no sofrimento. Traz, então, a observação de um menino pequeno – que, posteriormente soubemos, era seu neto – e a brincadeira que invariavelmente repetia na ausência de sua mãe. Trata-se do famoso fort da: o menino joga um carretel para trás de um móvel dizendo “fort” (em alemão – “foi-se”), para em seguida traze-lo de volta gritando alegremente: “da” (o que, em sua linguagem infantil, significaria “voltou!”). A brincadeira, repetida inúmeras vezes destinaria-se à elaboração da angústia pela ausência da mãe, e à inscrição psíquica do ciclo “foi-se/está de volta” (“fort-da”), indispensável para que esta angústia pudesse ser contida, na espera do retorno.

A seguir, Freud passa a discorrer sobre o “trauma” – grande quantidade de energia que irrompe e incide sobre o psiquismo, rompendo suas estruturas de recepção de estímulos e colocando-o imediatamente num modo de funcionamento cujo objetivo não é o de perseguir a satisfação e o prazer, mas de dominar o excesso que o invade. Freud afirma, ainda, que o efeito de “susto”, pelo natural despreparo do psiquismo para o evento excessivo, potencializa o efeito do trauma.

Assim como Freud há cem anos, encontramo-nos todos sob o efeito do trauma. Retirados de nossas rotinas, e de todas as formas de relações e circulação que nos eram familiares, por um evento de enormes dimensões, para o qual não estávamos preparados, estamos agora imersos em sensações e manifestações muito parecidas com as descritas por Freud há 100 anos. Angústia, insônia e sintomas físicos diversos fazem parte da vivência pessoal desta condição.

Vivemos também os efeitos coletivos do trauma: a corrida desenfreada em busca de produtos e serviços, medidas e afirmações por vezes contraditórias por parte das autoridades representativas, negação e recusa em acatar as medidas de prevenção.
Aquilo que está em vigência no coletivo, o excesso que incide sobre todos, afeta a cada um de forma singular. O traumático que nos envolve aciona cada um em suas vivências particulares de medo e desamparo, o que potencializa o efeito paralisante do excesso, confundindo o que é risco real e objetivo com as marcas de angústia singulares, de cada um de nós. Um dos efeitos da invasão imposta pelo trauma é justamente borrar os limites entre o que é interno e o que é externo a cada um de nós, confundindo riscos reais, que pedem medidas e cuidados objetivos, com os medos e desamparos inscritos em nós ao longo da história pessoal.

Neste momento de incerteza e angústia, incrementada pelo necessário período de confinamento, faz-se necessário o encontro com o que mais essencialmente reconhecemos como “nós”: nossa história – nossas memórias, fotografias, lembranças, conversas por telefone com os grupos de família. Nossas tarefas diárias – cuidados e organização da casa, as relações com as crianças, seus filmes, jogos e tarefas escolares; nossas atividades profissionais, na medida do possível, mas mais amplamente nossa identidade profissional  pelo contato, troca de idéias e construção de projetos coletivos com nossos colegas e associações profissionais. Também nosso mundo interior – nossos filmes, séries, livros, autores favoritos...

Como a criança descrita por Freud, precisamos resgatar, criar, e recriar, nosso mundo familiar, para que possamos perceber e lidar com uma realidade que, provavelmente, não será a mesma sob muitos aspectos.

Iberê Camargo, grande artista plástico gaúcho, ensinou-nos com a beleza de sua obra “Carretéis” a arte de transformar nossas vivências através do tempo, e ao mesmo tempo seguirmos ancorados em nossa história, em nossa identidade. A brincadeira com os objetos de trabalho da mãe, costureira, deu origem a uma das mais geniais e famosas séries do artista. Nela, Iberê Camargo cria, constrói e reconstrói sua memória ao longo da vida, dando-nos uma bela ilustração sobre como desenrolar o “for-da” da vida.

Encerro com suas palavras:
“Símbolo, signo, personagem – o carretel –,brinquedo da minha infância e agora, nesta fase, tema da minha obra, está impregnado dos conteúdos do meu mundo.” (Iberê Camargo)



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