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Para encontrar um novo!

SPRGS
Publicado por em Voz da Sociedade · 16 Abril 2020
Voz da Sociedade
Para encontrar um novo!
(Silvia Skowronsky)*
Há 25 séculos, Heráclito dizia que um homem não pode banhar-se 2 vezes na mesma água, ainda que no mesmo rio. Ensinava que tudo flui. Inquietante idéia sobre o eterno movimento.
O velho e o novo. O igual e o diferente. O conhecido e o estranho.
E a memória, o retorno, e a repetição?
Afinal, temas familiares à Psicanálise.
Freud interrogou o conhecimento e o saber, gerou um discurso que revolucionou as crenças científicas ao estabelecer um entendimento especial e singular das motivações do sujeito humano.
Movimento que funda a Psicanálise com a idéia da Dimensão Psíquica, quando descobriu o Inconsciente, que é atemporal. Condição da Memória, do Esquecimento, da Repetição e do A posteriori.
Vivendo descobrimos um ritmo, movimentos silenciosos e barulhentos que criam memórias que nos constroem.
O Tempo e a Circunstância são o desafio! A linha do tempo da existência cronológica significa a experiência vivencial.
O Tempo é movimento e com um ritmo cria-se a condição da vitalidade de uma Memória e de uma História.
Essa é a importância da memória no Viver Humano!
A memória permanece além do tempo! Nascida na experiência do vivido, é um patrimônio do inesquecível!
O registro subjetivo são as Memórias do que é “importante” e daquilo que é “inesquecível”, mas que convivem com as marcas daquilo que foi ou é insuportável.
A Memória ainda é um desagravo frente ao inevitável! Qualquer humano não retorna à origem, apenas através da Memória, pois o que se perdeu ou de onde viemos não existe mais!
Um constante desafio na experiência humana, a transitoriedade desencadeia inúmeros desamparos. Vencemos a impotência das incertezas criando outras noções que norteiam e organizam a imensidão do desconhecido, inventamos o relógio, achando que assim venceríamos o tempo, e inventamos o amor achando que assim venceríamos a morte, esquecidos que o tempo existe sem relógio e que a morte termina até essas invenções.
A dimensão transitória do viver humano ocupa os poetas e a literatura, nos criativos movimentos para nomear o enigmático, indagar sobre a origem e sobre esse inquietante ciclo da vida e da morte. Viver no mundo é mais complexo do que alcançamos pensar. Otávio Paz descreve, In Labirinto da Solidão, “Viver é separar-se daquilo que se foi para tentar elaborar o que vamos ser no sempre estranho futuro. O amor é um dos mais claros exemplos desse duplo movimento, que nos leva a cavar e afundar em nós mesmos e, simultaneamente, a sair de nós mesmos e realizarmo-nos com um outro. "
Música, Poesia, Palavra, constroem sentido para Pensar. Desfiando amor, dor, encantamento e desespero, alegrias e tristezas, plenitudes e sofrimento, misérias ou infortúnios, linguagem que ilustra sobre os enlaces, laços, alcances e fronteiras que movem o Sentir Humano. Norteiam, em figurabilidades, a experiência paradoxal de Ser e Ter, e de Existir no mundo.
O que sou e o que penso que sou, não significa o mesmo, é uma articulação de possíveis limites e inibições, ou de alcances e ampliações, tanto para mais como para menos.
A direção de cena será sempre de um ser sujeito, pois um ser objeto é ninguém. Virar alguém significa um desafio e implica em uma construção própria. Indagar é fundamental para reordenar emoções, enlaçar sentimentos, idéias e, principalmente, criar opiniões, também para enfrentar desamparos e transformar uma posição de sujeitado, de um vulnerável refém de crenças alheias numa posição de sujeito da própria história.
Eis o valor e o lugar do Si Mesmo na ancestral dialética com o Semelhante, e entre o individual e o coletivo. Calibragem importante para viver plenamente a condição humana.
Outro grande desafio humano é saber viver o tempo, e, incluir o saber do tempo precedente.
Saber o valor de raízes e asas. Os humanos necessitam do tempo e do amor, tanto para a alegria e felicidade, para crescer, como para cicatrizar. Também precisam alcançar, construir asas com suficiente autonomia para voar e sobreviver aos enganos, ao medo, e aos temporais da violência, e quando encontram o lugar do impossível.
Barbáries, Violência e a Tragédia são diferentes de Drama. No drama a angústia (sinal) sinaliza a ameaça do desprazer no viver. Na tragédia, a morte encerra o viver. São consequências e ameaças distintas.
Qualquer força que derruba certezas conhecidas representa uma ameaça e tem o especial poder de desencadear inúmeros efeitos, não só pelo inesperado, mas, principalmente, em razão de um excesso e, de modo especial, quando na presença de uma violência com crueldade, ou de ameaça à vida como na pandemia que estamos vivendo.
Diferença entre o impacto do Novo e o impacto do Inominável. Constatar a insignificância e a finitude é o desafio.
Um inédito assustador, que requer encontrar caminhos de pensar, para vencer o desamparo que desperta.
Esse ainda é o recurso disponível para vencer a sensação de reféns impotentes sem opção.
Hoje existe um novo Mundo sem fronteiras, onde o individual e o coletivo se articulam indissociáveis. Talvez agora a alteridade seja descoberta. O Mundo virou uma aldeia. Vamos pensar esse novo!
A certeza da insignificância com a fragilidade ressignifica a incerteza de viver! Afinal, o que é importante na vida?

*Sócia Jubilada da SPRGS


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