Descendentes do Apartheid: uma revisão sistemática sobre o trauma transgeracional
DOI:
https://doi.org/10.61085/2238-9709.2025.v14i1.573Palavras-chave:
Trauma transgeracional, Subjetividade negra, Psicanálise decolonialResumo
O fim jurídico do Apartheid sul-africano, em 1994, representou uma conquista histórica contra a segregação racial, mas seus efeitos subjetivos e transgeracionais permanecem ativos, configurando-se como um trauma histórico não plenamente elaborado. Este estudo analisou, sob perspectiva psicanalítica e decolonial, como o trauma do Apartheid é transmitido transgeracionalmente e se expressa na vida psíquica de filhos de pessoas atravessadas pelo regime. Por meio de uma revisão sistemática da literatura, conduzida segundo o protocolo PRISMA, foram consultadas as bases de dados Portal de Periódicos da CAPES, SciELO, BVS, LILACS, APA PsycNet e PubMed. Com a seleção de estudos empíricos e teóricos sobre transmissão psíquica do trauma, racismo e clínica em contextos pós-Apartheid, a análise revelou três eixos principais: inscrição pré-verbal do trauma; heranças psíquicas e clínica decolonial; e marcas racializadas e necropolítica da memória, que evidenciam a persistência das feridas coloniais e a atualização das violências no presente. Os resultados indicam a necessidade de uma clínica sensível à historicidade dessas feridas, articulando psicanálise, decolonialidade e políticas de reparação, e de ampliar a produção acadêmica brasileira sobre o tema.
Downloads
Referências
Abraham, N., & Torok, M. (1987). L’écorce et le noyau. Flammarion.
Adonis, C. K. (2016). Exploring the salience of intergenerational trauma among children and grandchildren of victims of Apartheid-era gross human rights violations. Indo-Pacific Journal of Phenomenology, 16(1-2), 1-17. https://doi.org/10.1080/20797222.2016.1184838
Alexander, J. C. (2004). Toward a theory of cultural trauma. In: J. C. Alexander, R. Eyerman, B. Giesen, N. J. Smelser, & P. Sztompka (Eds.), Cultural trauma and collective identity (pp. 1-30). University of California Press.
Almeida, S. (2019). Racismo estrutural. Pólen.
Atwoli, L., Stein, D. J., Williams, D. R., Mclaughlin, K. A., Pethukova, M., Kessler, R. C., & Koenen, K. C. (2013). Trauma and posttraumatic stress disorder in South Africa: analysis from the South African Stress and Health Study. BMC Psychiatry, 13(182), 1-12. https://doi.org/10.1186/1471-244X-13-182
Das-Munshi, J., Lund, C., Mathews, C., Clark, C., Rothon, C., & Stansfeld, S. (2016). Mental health inequalities in adolescentes growing up in post-Apartheid South Africa: cross-sectional survey, SHaW study. PLoS ONE, 11(5), e0154478. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0154478
Dolto, F. (1984). L’image inconsciente du corps. Éditions du Seuil.
Fanon, F. (2020). Pele negra, máscaras brancas. Ubu.
Frankish, T., & Bradbury, J. (2012). Telling stories for the next generation: trauma and nostalgia. Peace and Conflict: Journal of Peace Psychology, 18(3), 294-306. https://doi.org/10.1037/a0029070
Gobodo-Madikizela, P. (2002). Remorse, forgiveness, and rehumanization: stories from South Africa. Journal of Humanistic Psychology, 42(1), 7-32. https://doi.org/10.1177/0022167802421002
Gobodo-Madikizela, P. (2003). A human being died that night: a South African story of forgiveness. Houghton Mifflin.
Gobodo-Madikizela, P. (2024). The time of Nachträglichkeit and the afterlife of apartheid trauma. The International Journal of Psychoanalysis, 105(5), 766-777. https://doi.org/10.1080/00207578.2024.2403235
Harriman, N. W., Williams, D. R., Morgan, J. W., Sewpaul, R., Manyaapelo, T., Sifunda, S., Mabaso, M., Mbewu, A. D., & Reddy, S. R. (2022). Racial disparities in psychological distress in post-apartheid South Africa: results from the SANHANES-1 survey. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 57(4), 843-857. https://doi.org/10.1007/s00127-021-02175-w
Kaës, R., Faimberg, H., Enriquez, M., & Baranes, J. J. (2001). Transmissão da vida psíquica entre gerações. Casa do Psicólogo.
Kim, A. W., Mohamed, R. S., Norris, S. A., Richter, L. M., & Kuzawa, C. W. (2023). Psychological legacies of intergenerational trauma under South African apartheid: Prenatal stress predicts greater vulnerability to the psychological impacts of future stress exposure during late adolescence and early adulthood in Soweto, South Africa. Journal of Child Psychology and Psychiatric, 64(1), 110-124. https://doi.org/10.1111/jcpp.13672
Knight, Z. G. (2019). In the shadow of apartheid: intergenerational transmission of Black parental trauma as it emerges in the analytical space of inter-racial subjectivities. Research in Psychotherapy: Psychopathology, Process and Outcome, 22(1), 128-137. https://doi.org/10.4081/ripppo.2019.345
Mamdani, M. (2000). The truth according to the TRC. In: I. Amadiume & A. An-Na’im (Eds.), The politics of memory: truth, healing and social justice (pp. 176-183). Zed Books.
McIsaac, S. (2020). Identified patient: Apartheid Syndrome, political therapeutics, and generational care in South Africa. Medical Anthropology Quarterly, 34(2), 192-209. https://doi.org/10.1111/maq.12542
Mbembe, A. (2018). Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. N-1 Edições.
Moher, D., Liberati, A., Tetzlaff, J., Altman, D. G., & PRISMA Group (2009). Preferred reporting items for systematic reviews and meta-analyses: the PRISMA statement. PLoS Medicine, 6(7), e1000097. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1000097
Ramose, M. B. (2005). African philosophy through ubuntu. Mond Books.
Santos, B. S. (2019). O fim do império cognitivo: a afirmação das epistemologias do sul. Autêntica.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Ana Flavia Passarinho

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Declaração de Direito Autoral
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
a. Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
b. Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.